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Adaptação na Educação

Reunimos diversos pensamentos, depoimentos e práticas relacionadas à adaptação das crianças à creche e à pré escola no início do ano letivo. Essa situação geralmente perdura um mês e traz ansiedades e angústias de todos os lados: professores, famílias e crianças. Mas é também uma questão pensada e estudada. Conhecer visões sobre o assunto pode transformar o medo do desconhecido num primeiro passo para atravessar a porta de entrada!


O primeiro passo na visão de alguns estudiosos

“O momento de visita de uma criança a um local (…) é inaugural, ou seja, ao mesmo tempo, inaugura um novo lugar e inaugura um novo você”.


Coordenadora do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca, Mila Chiovatto, em depoimento para o Bolg Tempo de Creche (“É preciso olhar o mundo com olhos de criança”. Henri Matisse) 


“Temos que ter o maior cuidado com este primeiro encontro [da criança com o local], o tempo inaugural. É preciso ter profissionais cuidadores do tempo inaugural. É o futuro que está sendo construído. É uma alta responsabilidade”


Luiz Guilherme Vergara, educador, curador e atualmente diretor do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, em depoimento para o Blog Tempo de Creche (“É preciso olhar o mundo com olhos de criança”. Henri Matisse) 


A escola é uma espécie de segunda casa das crianças. Elas vão passar boa parte do dia neste ambiente. Na realidade, a creche e a pré-escola são os primeiros espaços de uma sequência de lugares educativos, são as portas de entrada da vida escolar.

Para as famílias da Educação Infantil o ambiente da instituição é novo e desconhecido. Iniciar a apresentação do local com pais e responsáveis e, depois, deixar para eles a tarefa de conduzir a criança na sua primeira visita, vai assegurar aos pequenos que o local conta com a aprovação da família. Essa ação pode contribuir para:


Uma boa relação das crianças com o novo ambienteFamiliaridade e integração das famílias com a instituiçãoConstruir parceria na adaptação da criança na creche

Em depoimento para o Blog Tempo de Creche, Anelise Csapo, supervisora do Núcleo Educativo da Casa das Rosas (SP),  (Primeiro dia na creche: um olhar novo de tudo) afirma: “Se a gente trabalhar instigando a criança a perceber o espaço como ela vê e como ela vai dispor das coisas, ela vai encontrar o “seu” espaço, ela vai começar a interagir, construir um espaço que seja aconchegante, que tenha acolhimento. Ao mesmo tempo, ela vai estar num momento de aprendizado, ela vai observar e ela vai trocar com outro, para criar uma coisa nova, mesmo que seja por intuição. Diferente de nós que pensamos o espaço como um todo, ela instintivamente vai pela curiosidade, percebendo, construindo o novo e se apropriando”.


Cida Perez, socióloga, ex secretária de educação da cidade de São Paulo (“É preciso olhar o mundo com olhos de criança”. Henri Matisse) destaca: “No primeiro dia da criança, em vez de dizer aqui é sua sala de aula ou, para os maiores, esta é a mesinha, a cadeirinha, este é o professor; vamos deixar  que ela entre e fale o que acha daquilo. Deixar que ela percorra a escola. Assim ela vai se enxergar no espaço que vai visitar diariamente e fazer desta visita um prazer”


Algumas explicações

A entrada dos pequenos na creche é motivo de tensões pois nesse processo há angústias, curiosidades, mudanças e surpresas. Porém, é preciso saber que a adaptação não ocorre uma única vez. A cada novo ano, volta de férias, de um período de afastamento, acontece o recomeço.


Muitos sentimentos e emoções acometem os pequenos e demandam sensibilidade e delicadeza da equipe:


1)     O MEDO DE FICAR PARA SEMPRE NA ESCOLA – Apesar do acolhimento da professora é importante que as famílias esclareçam e incentivem a criança dizendo o que irá acontecer e que vão retornar para buscá-la.


2)     QUERER FICAR COM A MAMÃE – Claro que a criança deseja ficar com quem conhece, seja a mãe, a avó, o pai ou o cuidador. O vínculo com os professores e demais funcionários está apenas começando. Os professores devem fazer parceria com as famílias para construir o novo vínculo com as crianças. Para isso, algumas dicas fundamentais:


Não disputar o abraço, o colo, a atenção e o tempo dos pais com seus pequenos! Se o responsável se demorar na despedida, atrasar ou qualquer outra situação contrária às regras e combinados da adaptação, o melhor é esperar o momento passar e conversar com o familiar longe da criança.


Combinar com a equipe quais crianças “pertencerão” a cada educador, especialmente no período de construção de vínculo. É a ideia de adulto referência de Emmi Pikler. Ao ingressar num universo novo e estranho, o pequeno constrói vínculo mais facilmente com uma só pessoa. Assim, nos momentos de trocar, lavar as mãos, escovar os dentes, alimentar e, se possível na recepção e na saída, é fundamental que um dos professores faça todas essas ações. Ele será a referência da criança no novo ambiente. Depois, quando o pequeno estiver adaptado, será mais fácil ter toda a equipe dividindo as atenções.


3)     DESEJO DE PERMANECER COM O OBJETO TRANSICIONAL (Winnicott)- É interessante permitir que  criança traga algum objeto de casa, se quiser ou estiver acostumada. Essa é uma boa maneira de fazê-la se sentir reconfortada. É como se ela estivesse levando uma parte, um cheirinho de casa consigo. Aos poucos, a criança vai trocando o objeto transicional  por brinquedos e brincadeiras da escola.


4)     SEMPRE FALAR A VERDADE PARA A CRIANÇA – Isso é fundamental! Conversar com os pais para que não prometam aquilo que não farão ou não cumprirão:

⇒ Não fugir da criança sem dizer adeus. É importante se despedir dela, mesmo que ela chore.


Pedir aos pais que digam à criança que irão voltar e solicitar que voltem no prazo estabelecido ou sugerido.


Essencial não prolongar os momentos de despedida! Assim que se despedirem, instruir os pais para que deixem o espaço.


5)     FAMÍLIAS DEVEM EVITAR PERGUNTAR À CRIANÇA SE ELA QUER IR À ESCOLA – Conversar com as famílias sobre essa questão pois a decisão de frequentar a escola deve ser tomada por pais e responsáveis e não pela criança. É comum que a grande maioria dos pequenos  prefere ficar em casa, onde o ambiente é conhecido por eles e são tratados com prioridade total. Você não preferiria isso também?


Assim, fundamentalmente, a adaptação é a construção de uma relação criança-escola-famílias que tem que ser alimentada para ganhar solidez.


Ambientes e propostas

Em muitos casos, embora a criança esteja aparentemente adaptada à rotina escolar, pode ocorrer uma espécie de retrocesso. Ou seja, depois de alguns dias chegando bem à creche e se mostrando disposta, a criança passa a não querer mais frequentar a escola. Esse fato pode ter muitas causas, a mais frequente é a ausência de novidades no espaço escolar ou até a presença de regras que regem os grupos sociais, às quais o pequeno não está habituado.


Explicando melhor, há crianças que exploram todo o ambiente em poucos dias, que adoram entrar na escola, pegar brinquedos e se divertir em todos os lugares oferecidos pela professora. Aí, as novidades acabam! Em casa, a criança prevê o que irá acontecer (ou não acontecer!) na escola e…. não quer mais voltar.


Também existe a criança que é única ou quase única em casa e, de um dia para o outro, passa a ter que esperar a sua vez para beber água, ir com todo o grupo lavar as mãos ou aguardar a vez para brincar.


A organização dos espaços na educação infantil é reconhecida como o “terceiro educador” (Lella Gandini). No período de adaptação, os desafios apresentados pela escola podem encorajar as crianças a participar das propostas, criar um clima positivo de pesquisas e descobertas, relacionamentos e interação, possibilitando melhores oportunidades para estabelecer uma conexão com a escola. Planejar uma sala acolhedora com cantos e propostas variadas e desafiadoras, que se alternam, é uma estratégia para apresentar inovação e instigar a vontade de voltar para a escola.


Outro aspecto fundamental da construção da relação criança-professor-escola é a escuta. Compreender o que as crianças estão “dizendo” é importante para identificar mudanças de rota e novas ações. O professor precisa estar preparado para ler as atitudes e contribuições (as respostas) da criança. Não é só a palavra, mas todo o corpo que fala. Este momento é uma novidade para os pequenos e uma novidade para os professores também.


O olhar da Psicologia

As reações da criança à separação da mãe têm sido colocadas entre o protesto e angústia. (Bowlby, 1973/1993). O protesto da separação é a resposta da criança quando a mãe a deixa (choro, gritos, birra, jogar-se no chão etc.). A angústia de separação é o sentimento que fica na criança (tristeza, angústia, sofrimento verdadeiro).


Bowlby definiu algumas formas de comportamento que são indicativas do medo despertado pela separação e pelo contato com pessoas e lugares estranhos. Exemplos destes comportamentos são:

olhar de cautela;inibição da ação (a criança fica parada, sem fazer nada);expressão facial assustada;tremor ou choro;busca de abrigo;esconder-se;agarrar-se a alguém.


Estas formas de comportamento, indicativas de medo, são seguidas por três tipos de resultados previsíveis: imobilização, distância crescente do que as “ameaça” e proximidade crescente de quem ou do que fornece proteção. Os sentimentos e a delicadeza das emoções da adaptação precisam ser reconhecidos pelos profissionais das escolas e também pelas famílias.


Cada contexto tem suas particularidades e, se as características individuais da criança são ou não compatíveis com o contexto da creche, ela se adaptará mais ou menos rapidamente. Assim, podemos entender a adaptação à creche como um processo gradual, em que cada criança precisa de um período de tempo diferente para conhecer, lidar com as emoções do estranhamento e se sentir confortável e acolhida. É importante respeitar os ritmos singulares e não impor um período pré-determinado para o processo acontecer.