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A Família e o Tempo


Em tempo de Coronavírus: Tempo no tempo, aulas suspensas, crianças em casa, retomando o tempo!


Não tem jeito, o recolhimento é a melhor prevenção. E, é claro, saber lidar com imprevisto, sair da zona de conforto e ter discernimento em hora de crise são a grande prova dos nove para testarmos de fato a nossa capacidade de ressignificar, testar a nossa capacidade de sermos resilientes ao que está posto e praticar o discurso de responsabilidade social, empatia e solidariedade.


Pode até parecer uma catástrofe, e se formos analisar os fatos, sim, é uma catástrofe!


No entanto, ficar em casa com nossas crianças, com tempo, sem ter possibilidade de programação pode ser uma retomada do viver, pode ser a retomada de relações com qualidade, pode ser a recuperação do que já havíamos dado como perdido e que loucamente tentamos recuperar.


Retomar as práticas simples do convívio familiar e redescobrir o quanto é grandioso os seus efeitos, nas tarefas do dia a dia, nas brincadeiras guardadas no fundo do baú, no compromisso com a infância, em respeito às suas potencialidades, redescobrindo o quanto esse território é poético e encantador.


Pois agora, o precioso tempo com nossas meninas e meninos, que tanto sonhávamos, nos foi imposto, sem pressa, com tempo para se fazer qualquer coisa.

Tempo para não ir jantar fora e fazer um dia de cozinha experimental.

Tempo para não ir ao cinema e ter sessão com pipoca e debate.

Tempo para não ir ao playground e poder ler, contar e ouvir histórias, tempo de recitar poesia.

Tempo para não ir ao shopping e poder esculpir, desenhar e pintar, papel e paredes.

Tempo de arrumar gavetas, armários e mudar móveis de lugar.

Tempo de memórias, de reverências, tempo de organizar aqueles retratos amarelados.

Tempo de brincar de mímica, batalha naval e navegar em mares nunca desbravados.

Tempo de linha e agulha, tempo de costurar e de bordar sol, luas e estrelas, florestas, mares e planetas.

Tempo de conversar, dialogar, tricotar.

Tempo de fazer acantonamento na sala de casa, com direito a caça ao tesouro e descobertas de reinados e impérios.

Tempo para não ir à feira, tempo de fazer aquela hortinha orgânica e alimentar hábitos saudáveis.

Tempo de morrer de rir de cosquinha até pedir arrego, de estátua, de cantar “qual é a música?”, tempo de guerra de travesseiro, tempo de aprender a tocar um instrumento.

Tempo de fazer bolinha de sabão, aproveitar e lavar louça.

Tempo de montar quebra cabeça e adoletar com jokempô.

Tempo de jogar cinco marias, tempo de lembrar e falar de tantas Marias.

Tempo de não digitar, tempo de papel e caneta, tempo de escrever, tempo do jogo da velha, da forca, e de adedonhar o alfabeto (ou stop).

Tempo de dançar e rebolar como as caveiras na tumbalacatumba.

Tempo de trançar os cabelos e fazer penteados.

Tempo de não fazer nada.

Tempo de fazer massagem e cafuné.


Tanto tempo que vai dar para jogar videogame, usar o tablete, receber e mandar mensagens pelo whatsApp.

Vamos dar tempo ao tempo,

Vamos marcar no compasso do convívio,

Vamos medir o tempo de resistência,

Vamos nos preparar e aprender as velhas novas formas do viver.


Simples assim, ainda dá tempo!


Rosa Bertholini, pedagoga, pesquisadora das infâncias, diretora e fundadora da Casa de Aprendizagens – Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental